Quem Somos
Equipe
Editorial
Artigos
Entrevistas
Papo Sério
Meio Ambiente
Ciências
Direitos
Quadrinhos
Eventos
Momento Fala
Kid Denúncia
Portfólio
Links
Fale Conosco

 

PARAÍBA DO SUL LEVARÁ MUITOS ANOS PARA SE RECUPERAR DO DESASTRE ECOLÓGICO
Um rio sem vida, semelhante a uma piscina suja com água corrente. Este pode ser o cenário do Paraíba do Sul imediatamente após a passagem da onda negra e tóxica que atingiu a zona urbana de Campos (RJ) na 4ª feira (2) e que já chegou a São João da Barra (RJ), na foz do rio.

A previsão é do biólogo Carlos Eduardo de Rezende, professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e de outros estudiosos da área ambiental.

Mesmo com o acentuado grau de incerteza quanto ao futuro próximo, é possível antever o tamanho do estrago na biodiversidade da região. Segundo a bióloga e professora Ana Paula Madeira Di Beneditto, a bacia do rio Paraíba do Sul tem mais de 160 espécies de peixes catalogadas.

No Rio Pomba, diretamente atingido pelo derrame tóxico, são 56 espécies, sendo 16 com importância econômica.

Os estudos indicam ainda que, das 160 espécies de peixes da bacia, 37 são típicas da região do estuário (foz). Ali há registro de três espécies de caranguejo, uma de siri e três a quatro de moluscos bivalves. "O camarão pitu (Macrobrachium sp) ocorre ao longo de todo o rio", informa.

Para Carlos Rezende, não é possível falar seguramente em prazo para recuperação do ecossistema. "Tudo dependerá do tipo e da intensidade das políticas públicas a serem implementadas. Desde menino ouço falar em despoluição da Baía da Guanabara", ilustra.

Para reconstituir a vida no médio e baixo Paraíba do Sul, será preciso refazer a cadeia alimentar. O primeiro passo é a restauração dos organismos vegetais - o fitoplâncton, que está na base da cadeia.

Na opinião dos pesquisadores, o ressurgimento da vida vegetal, embora exija atenção, não deve ser o maior problema. É que a própria água que desce o rio traz consigo estas plantas
microscópicas.

Quanto à vida animal, a perspectiva é de maior complexidade, já que o repovoamento de peixes e crustáceos terá que levar em conta os diversos elos da cadeia alimentar, especialmente a interação entre presas e predadores. Isto sem falar nos animais silvestres que estão morrendo ao se banhar ou beber água dos rios atingidos. "Este não é um desastre qualquer. É um mega-desastre", opina o geógrafo Marcos Antônio Pedlowski, doutor em Planejamento Ambiental e
pesquisador do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (Leea) da Uenf.

Pedlowski sugere três níveis de atuação: o mapeamento e monitoramento de toda a bacia, para identificar todos os focos de possíveis acidentes; a adoção de medidas efetivas de prevenção; e a implementação de políticas públicas regeneradoras e compensatórias após este desastre. Vários trabalhos de recuperação da vida no Rio Paraíba foram atingidos, como o Projeto Piabanha, baseado em Itaocara (RJ), que tem a participação da Uenf, e o repovoamento de lagostas em São Fidélis, realizado por pescadores com participação da Ong Ecos Rio Paraíba. A entidade também trabalha em conjunto com pesquisadores do Laboratório de Ciências Ambientais da universidade.

Defesa Natural destruída

Mais do que exterminar a vida, a onda negra deve ter arrasado o complexo sistema natural de auto-purificação do Rio Paraíba do Sul. Ou seja, além de gravemente doente, o rio estará também com sua defesa natural destruída e, portanto, muito mais indefeso diante das agressões habituais. A avaliação é do professor Dálcio Ricardo de Andrade, especialista em piscicultura de água doce da Uenf. "Não se trata apenas de repovoar de peixes e crustáceos. Trata-se de
reconstruir todo um ecossistema destruído", afirma Andrade.

Para o especialista, o primeiro passo para a reconstrução será conhecer finalmente o completo teor das substâncias derramadas no rio. "Mesmo com esta indefinição, está claro que se trata de substâncias altamente tóxicas, porque a mortandade de peixes é altíssima e atinge praticamente todas as espécies", afirma o pesquisador. Andrade se preocupa especialmente com a região de mangue, que é um berçário natural da vida animal. "Lá, não ocorre a renovação de água nos mesmos níveis em que se verifica nos outros trechos do rio. Temo que a poluição se deposite e por lá permaneça por muito mais tempo".

Ele explica que, no trecho anterior ao derrame, a ictiofauna (população de peixes) não atingida pode ajudar a repovoar a área afetada. "Mas um peixe busca locais com abundância de alimentação. Se aqui não houver boa oferta, o repovoamento será mais difícil." O pesquisador cita o caso das lagostas típicas de São Fidélis (RJ). A base de sua alimentação deve ter sido destruída, com o agravante de que o mangue - local de reprodução - também está afetado. Para piorar, não há técnicas eficazes de reprodução desta espécie de lagosta em cativeiro.

Para o especialista, o horizonte não é nada animador. Dada a complexidade de se manejar um sistema do porte do Rio Paraíba do Sul, na extensão afetada, o que vai ser mais decisivo é a capacidade natural do ecossistema de se regenerar. E esta capacidade, como se viu, está altamente comprometida.

Iniciativas como o Projeto Piabanha, que envolve diferentes segmentos de pescadores, entidades e universidades, incluindo a Uenf, devem assumir papel estratégico e, segundo o pesquisador, merecer atenção especial das instâncias de governo. Entre as espécies de maior relevância socioeconômica do Paraíba do Sul estão o piau, a lagosta, o camarão pitu, curimatá, robalo, dourado (muito procurado por adeptos de pesca esportiva) e outros como traíra, cascudo e os bagres da região da foz.

Medo de novo derrame

Além da gigantesca tarefa de reconstrução da vida das plantas, animais e das pessoas atingidas, a população está assustada com a ameaça de rompimento da segunda barragem de rejeitos tóxicos, localizada a dois quilômetros daquela que já se rompeu, em Cataguases (MG). O professor Fernando Saboya, especialista em barragens e pesquisador do Laboratório de Engenharia Civil da Uenf, teme que os supostos indícios de infiltração sinalizem uma ruptura iminente. "É preciso avaliar a qualidade e o aspecto dessa água que infiltra para verificar se se
trata de rejeito ou de água de chuva", antecipa.

Mesmo não conhecendo detalhes do depósito de rejeitos - as próprias autoridades demonstram não ter pleno conhecimento das substâncias presentes ao derrame -, Saboya formula uma hipótese para explicar o rompimento. "A barragem normalmente é de solo argiloso, com baixa permeabilidade. A argila tem plasticidade. Acontece que a soda cáustica quebra a plasticidade da argila, o que a torna susceptível à erosão interna e, no extremo, ao rompimento. Esse processo da água infiltrando e carregando consigo as partículas do solo é o que a gente chama de piping ou entubamento".

Saboya frisa que os governos estadual e federal podem contar com os especialistas na área de barragem e na área ambiental da universidade para cooperar na avaliação de segurança de outras áreas de risco ao longo da bacia do Paraíba do Sul. ( Agência Brasil com informações da Assessoria de Comunicação da Uenf)