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NÃO
FAÇO! TRABALHO NÃO É COISA DE CRIANÇA
Escrevo
esta carta para dizer que você, Luís Inácio
Lula da Silva, mereceu esse cargo tão importante, porque
saiu de uma família pobre e chegar a esse cargo não
é fácil ... eu desejaria que abaixasse os preços
dos produtos, melhorasse a situação da seca
no Nordeste e tirasse as pequenas crianças do trabalho
tão duro de cortar cana.
(Pedro Henrique de Souza)
O que assusta ao
menino Pedro Henrique, de 12 anos, morador do Rio de Janeiro
é ver reportagens na TV com meninos e meninas cortando
cana, manuseando facões para descascar mandioca, trabalhando
em péssimas condições nas carvoarias,
nas plantações de sisal, nas pedreiras e nas
cerâmicas em áreas rurais do Brasil. Mas a realidade
não cabe nos poucos minutos em que é exibida
pela televisão. Estima-se que 25 mil crianças
com 5 anos de idade exerçam atividades perigosas para
ganhar apenas alguns trocados. De acordo com um estudo encomendado
pela Organização Internacional do Trabalho (OIT)
ao escritor e analista Simon Schwartzman, com base em pesquisas
do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
o número de trabalhadores infantis cresce à
medida que a faixa etária vai aumentando. Aos 17 anos,
o estudo revela 1,7 milhão dos jovens brasileiros,
cerca de metade da população com esta idade,
já trabalham. O total estimado é de 7,7 milhões
de crianças e jovens trabalhadores.
As leis brasileiras
garantem o direito a estudar e ter pleno desenvolvimento físico,
mental e moral a todas as crianças até os 14
anos. De 14 aos 16 anos, os jovens podem exercer atividades
como aprendizes, sem que isso atrapalhe os estudos. A partir
dos 16 anos, o trabalho passa a ser legal e o jovem já
pode ingressar no mercado formal. Mas somente leis não
são capazes de reverter o doloroso quadro do trabalho
infantil em todo o país. As práticas abusivas
de exploração de crianças a serviço
de patrões, proprietários, empresários
e até os próprios pais só poderão
ser severamente combatidas quando a sociedade mostrar indignação
e repúdio aos exploradores, considerando-os criminosos
em potencial contra a infância e adolescência
brasileira.
Entre 1990 e 1996,
as Pastorais da Terra e da Criança apuraram números
sobre a violência que atingem crianças e jovens
por começarem a trabalhar muito cedo e, muitas vezes,
não podem sequer freqüentar escolas, como se ao
nascerem pobres não tivessem direitos a ter um futuro
melhor:
Conflito de terras - Foram registrados 10 assassinatos de
crianças de diferentes idades, entre eles, Oziel Alves
Pereira, 17 anos, caçado e morto barbaramente por policiais
militares em Eldorado de Carajás-PA em 1996. Cerca
de 28 jovens sofreram tentativas de assassinato de diferentes
formas, como tiros, queima de casas etc. Outros 26 jovens
foram ameaçados de morte, como o menino J.S.V, 12 anos,
intimidado pelo grileiro da Fazenda Boa Esperança,
no município de Jaguaripe (BA) com as seguintes palavras:
"Estou aqui para matar toda a família" (Tribuna
da Bahia em março de 1991)
Trabalho escravo - Em 1991, 15 crianças foram encontradas
na Empresa Rural Rodas Ltda, em Santos Dumont (MG). Elas eram
impedidas de sair da área e estavam doentes, sem dinheiro
e vivendo sem qualquer infra-estrutura (O Estado de São
Paulo em Fevereiro de 1991). Na Fazenda Ribeirão Vermelho,
em Capelinha (MG), 9 crianças foram descobertas vivendo
em situação de trabalho escravo, como Fábio,
10 anos, que contou que todo o dia era espancado com chicote,
mas que a mulher do fazendeiro, Dona Carminha, era boazinha,
porque só batia de vara, que dói menos (Estado
de Minas em novembro de 1995). Em Xinguara (PA), Raimundo
Honorato, 60 anos, e sua neta, A., 8 anos e A.R.S, 14 anos,
eram mantidos em cárcere privado no interior da Fazenda
Mundo Novo, onde foram encontrados amarrados pelos pés
e eram constantemente submetidos a torturas (O Liberal/PA
em maio de 1991).
Acidente de trabalho - Em Araçoiaba da Serra (SP),
O J. C., 15 anos, morreu carbonizado ao ficar preso em um
canavial na Fazenda Alcolea. D.L.O, 15 anos, foi internado
em estado grave, vítima do acidente entre o ônibus
de bóias frias e um caminhão parado na estrada
(O Estado de São Paulo em maio de 1994). Em 1992,em
São Sebastião (AL), 7 crianças de 4 meses
a 17 anos morreram vítimas de um acidente no transporte
de bóias frias, (Gazeta de Alagoas em maio de 1992).
Na cidade - A exploração do trabalho infantil
não acontece só nas áreas rurais. No
comércio das pequenas cidades é possível
constatar a presença de adolescentes trabalhando em
jornadas de até 12 horas, de segunda a sábado
e, às vezes, até domingo, com um salário
mensal de R$ 70,00, sem folga semanal, férias, 13º
salário, ou qualquer outro direito trabalhista. Em
todo o país, é fácil encontrar também
meninas que saem da casa dos pais para trabalhar como empregadas
domésticas, sem direitos ou descanso, sob o pretexto
de serem criadas por famílias com mais recursos. Algumas
inclusive sofrem abusos sexuais por parte destas família.
Estima-se que haja 400 mil empregadas domésticas menores
de 16 anos no País e outros milhares de jovens atuando
no mercado informal, distribuindo panfletos, trabalhando com
perueiros e etc.
HÁ SOLUÇÃO:
Na Bahia, o Programa de Prevenção e Erradicação
do Trabalho Infantil (Peti), realizado em parceria pelo Ministério
da Previdência e a Secretaria da Ação
Social do Estado, estima que tenha retirado da lavoura de
sisal, das pedreiras e da fabricação de fogos
cerca de 33 mil crianças e adolescentes de 7 a 14 anos.
Para tirar meninos e meninas das atividades, o Peti paga por
cada criança inscrita R$ 25,00 a família. A
criança passa a freqüentar a escola e a desenvolver
atividades de esporte e lazer. O maior problema do Programa
tem sido manter os jovens nas escolas depois que completam
a idade-limite de 15 anos.
Em Franca (SP), uma pesquisa realizada com apoio do UNICEF
revelou que muitos adolescentes entre 11 e 13 anos trabalhavam
costurando calçados em oficinas clandestinas. Eles
exalavam diariamente cola de sapateiro, um produto altamente
tóxico, além de trabalhar mais de seis horas
por dia e receberem menos de meio salário mínimo
por mês. Diante deste quadro, foi desenvolvido um projeto
integrado com a prefeitura para combater o trabalho infantil.
Foram adotadas as seguintes estratégias: O SENAC e
o SENAI ofereceram treinamento profissional e bolsa de 100
dólares mensais, passe de ônibus e refeição
diária para adolescentes de baixa renda que trabalham
na produção de sapatos.Um sindicato local disponibilizou
seu centro de recreação para os adolescentes
praticarem atividades esportivas. A Unesp, com o apoio do
UNICEF, desenvolveu um curso de "Treinamento para Cidadania"
dirigido aos adolescentes: educação sexual e
para a saúde, direitos da criança e do adolescente
e relações familiares, direitos trabalhistas,
obtenção de documentos, etc. Em 1995, os empresários
do município criaram uma entidade sem fins lucrativos,
o Instituto Pró-Criança, que concede um selo
de qualidade para os sapatos que são fabricados sem
a utilização da mão-de-obra infantil.
O Projeto Nossas Empresas, da Fundação Abrinq,
é uma das campanhas contra o trabalho infantil de maior
sucesso. O Projeto reúne 1.688 empresas em todo o Brasil,
como exportadores de calçados, produtores de suco de
laranja e usinas de açúcar e álcool,
que antes utilizavam o serviço de crianças e
adolescentes. A empresa que participa do projeto recebe diploma
e ganha o direito de utilizar o selo Empresa Amiga da Criança,
que serve como atestado de colaboração com um
projeto social importante, e pode ser utilizado em embalagens,
notas fiscais, home page, anúncios e outros.
Fontes:Comissão
da Pastoral da Terra - CNBB, Redação Terra /
O Estado de S. Paulo, UNICEF - Instituto Polis.
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