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OCIOSIDADE
- A PROBLEMÁTICA DOS PRESÍDIOS
Sistema penitenciário
brasileiro sob pleno fogo cruzado
Sociedade e crianças
opinam e apresentam sugestões para a solução
da violência no país
Uma sucessão
de políticas e ações que jamais valorizaram
o ser humano, estimularam o senso de coletividade na população,
de respeito ao próximo, esclarecendo sobre onde começa
e termina o que é público e privado, bem como
quais são de fato os direitos dos cidadãos.
No Brasil nunca existiu a preocupação de despertar
no povo a noção da responsabilidade individual
no sentido ético das relações humanas.
As aberrações diariamente registradas pela imprensa,
no entanto, não poderiam surtir outro efeito senão
o estado de pânico em que a sociedade vive.
Cabe perguntar, portanto, o que há de comum entre a
situação da superlotação dos presídios
e o não cumprimento dos direitos básicos da
criança e do adolescente. A resposta é simples:
a indiferença humana. Segundo o relatório da
organização internacional de direitos humanos,
a Human Rights Watch, publicado em 2002, o Brasil possui 170.000
presos, ou seja, 108 detentos por 100.000 habitantes e administra
um dos dez maiores sistemas penais do mundo.
Em meio a tanta gente presa como pode um país ter tantos
indivíduos atrás das grades? São todos
criminosos? Entre incontáveis justificativas para o
problema é possível dizermos que este mesmo
contingente é constituído, também, por
pessoas que desde crianças sofreram com a dor da desigualdade
social, com toda a sorte de carências, restando-lhes,
portanto, senão o desequilíbrio emocional, a
perturbação mental, a incapacidade de ajustamento
social, mas, o destino das prisões.
A questão se torna delicada quando entre milhares de
presos misturam-se pais e réus com grau e natureza
de crimes dos mais variados, convivendo amontoadamente como
animais em cubículos. Toda essa população,
a exemplo do que determina a Lei de Crimes Hediondos, ao ser
encarcerada passa por um processo de despersonalização
e desprogramação humana, tendo suas necessidades
básicas e a própria identidade anuladas. Tal
medida destinada ao confinamento encerra, desse modo, a última
chance de o interno se regenerar e se reintegrar socialmente,
tirando a esperança de vida e incentivando a reincidência
criminal.
Sem a menor possibilidade de recuperação, pais
e mães - o principal referencial de vida para seus
filhos –, saem da cadeia piores do que entram, servindo-lhes
de mal exemplo. Estas crianças, sem a quem recorrer,
vão para as ruas em busca do próprio sustento
e da família, e por lá acabam se perdendo. Assim
se forma o círculo vicioso que joga por terra qualquer
esforço ou plano do Governo no sentido de fazer o país
crescer, sem os contrastes absurdos que chocam e tiram o sono
da população a cada tiro disparado por todos
os lados.
Uma luz no fim
do túnel – Infelizmente foi preciso que o limite
de tolerância em relação à violência
extrapolasse pra que a população despertasse
sobre a importância de ver o próximo sob um prisma
mais humano. Embora de forma isolada e ainda muito aquém
da real necessidade do país, a sociedade sinaliza o
princípio de mudança de paradigma social ao
tomarem iniciativas voltadas ao desenvolvimento pessoal do
detento.
No Paraná, por exemplo, a Penitenciária Industrial
de Guarapava, a primeira do Brasil a funcionar com serviços
terceirizados, no ano passado gerou emprego a 240 presos que
recebiam um salário mínimo por mês. Naquele
município, o índice de reincidência é
de 6% contra a média nacional de 70%. No Estado de
São Paulo, além do grande número de vagas
abertas em 2001, através da construção
de novos presídios, o Governo criou o Programa Integrado
de Prestação de Serviços a Comunidade.
A solução para todos esses casos tem sido a
aplicação de penas alternativas aos sentenciados
de “baixa periculosidade”. Com base na Lei de
Execução Penal, detentos prestam serviços
de caráter social, reduzindo um dia de prisão
para cada três dias trabalhados. Entretanto, equacionar
os problemas da violência no país exige, no mínimo,
destinar atenção especial a crianças
e adolescentes. Infratores, filhos de presos ou em situação
de risco, o fundamental é a sociedade e governantes
aprenderem a ouvir o que esses jovens têm a dizer, como
nos depoimentos a seguir em que seus nomes verdadeiros, a
pedido deles, não são revelados.
“Minha opinião
sobre as pessoas que ficam no presídio é muito
delicada: lá elas só comem, bebem, dormem, fumam
e fazem nojeira e palhaçada. Os policiais colocam cada
preso em uma tarefa. Elas estragaram suas vidas lá
fora. E agora? Agora estão pagando pelo que fizeram.
No presídio a maior segurança para os presos
é uma cela com correntes muito fortes. Eles deveriam
arrumar seus cantos onde dormem, comem e brincam. Eu tenho
um carinho enorme por todos os presos, mas eles não
podem ficar se envolvendo com outras pessoas ruins”.
(Jaciara, 12 anos, estudante, Rio de Janeiro).
“Na minha
opinião deveria haver vários professores de
educação, uma fábrica de brinquedos dentro
dos presídios e uma escola para todos estudar e resgatar
sua cidadania, se tornar um bom homem e fazer muitas tarefas
divididas entre os presos”. (Caramuru, 13 anos, estudante,
Rio de Janeiro).
“Nas celas
do presídio não pode haver armas, celulares.
Deveria ter mais segurança, uma atividade que ensine
um ofício como, por exemplo, a de aprender reciclagem,
cursos profissionalizantes que ocupem a cabeça dos
presos”. (Iara, 12 anos, estudante, Rio de Janeiro).
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