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Délcio
Teobaldo. Mais do que ser escritor, jornalista, radialista,
músico, artista plástico, pesquisador de culturas populares,
professor de Comunicação Social Délcio Teobaldo é homem de
raízes profundas, perpetuadas através de sua família, retrato
de um Brasil miscigenado, rico em expressões culturais. Neto
da batuqueira angolana, Eva Paulina de Jesus; da cirandeira
portuguesa, Angelina Maria dos Santos e do caboclo contador
de histórias, Luiz Sabino Soares. Filho da camponesa e benzedeira,
Maria Luzia e do dançador de caxambu e caboclinho, José Teobaldo.
Délcio nasceu em Ponte Nova, zona da mata mineira, ouvindo
ladainhas, congadas, fulôs, cantos de calamboteiros e de lavadeiras.
Por isso mesmo sua vida se fundamenta nesses contos, ritmos
e festas; no requinte dos doces e licores portugueses do Algarve;
no poder dos chás, das benzas e ungüentos da tradição guarani-banta.
Sua carreira profissional resgata a cultura popular, seja
no cinema, na TV, no rádio e no jornal ou, ainda, através
da multiplicação de informações em salas de aula, palestras,
shows, exposições e nos livros que escreveu como "A filosofia
das tradições afro-brasileiras" e "Cantos de fé, de trabalho
e de orgia - O jongo rural de Angra dos Reis". Délcio Teobaldo
é autor do musical "Chico Preto - O negro na obra de Chico
Buarque de Hollanda", uma homenagem aos 60 anos de idade e
40 de carreira do compositor.
FC
- Até que ponto a difusão da cultura popular interfere na
construção de um Brasil mais brasileiro e solidário?
Délcio
Teobaldo
- A cultura popular, em todas as suas formas de manifestação,
é uma ação política de baixo para cima; do centro para as
superfícies; de dentro para fora. Ou seja, ela mostra como
o povo comunga, se organiza e exibe a sua competência. Você
usou na pergunta o verbo interferir, que é um verbo muito
interessante. Inter significa entre e de maneira direta, a
imagem que temos do verbo interferir é de uma faca com duas
pontas que fere, que incomoda, que provoca discussões e reações
quando é colocada entre duas idéias opostas. Interferir é
ferir por dentro e, neste aspecto, a cultura produzida espontaneamente
pelo povo é um exemplo de provocação diária, de incômodo social,
porque ela é visível quando exposta num objeto feito com material
reciclado; ela é audível, quando cantada numa brincadeira
de roda; ela invade o nosso olfato quando é apresentada num
prato de comida, para quem tem a felicidade de comer todos
os dias. Cultura é a soma desses saberes e dessas possibilidades
e um país só pode se considerar nação se reconhece, incentiva,
se orgulha desses saberes e oferece condições para que eles
se manifestem.
FC
- Por que grande parte das pessoas, que tiveram formação semelhante
a sua, se afastam da responsabilidade de serem agentes sócio-culturais
difusores de suas raízes?
Délcio
Teobaldo
- Assumir uma herança e carregá-la como bandeira não é fácil,
numa sociedade que separa de maneira muito cruel, o conhecimento
humano em dois pólos. Desde cedo aprendemos que existe um
Brasil rural e um Brasil urbano, não é mesmo? Um Brasil popular
e um Brasil erudito; um Brasil brega e um Brasil chic; um
Brasil que deu certo e um Brasil condenado. O que existe entre
esses dois brasis? Um buraco, um vazio, um espaço que precisa
ser pensado e trabalhado e preenchido para que esses dois
brasis sejam unidos. É nesse espaço que a gente deve interferir
(viu só como o verbo interferir é poderoso?), para mostrar
que a separação é burra e inconseqüente. Senti isto na pele
porque, como a maioria dos "urbanos", vim do interior, do
Brasil rural. Ponte Nova, na zona da mata mineira, onde nasci,
era uma cidade de cultura pastoral agrícola e foi ali que
tive, com meus pais e meus avós, toda a base da minha cultura.
Com minha avó doceira, vi farinha, ovos e leite serem transformados
em bolos; com minha mãe, que era bordadeira, vi fios de linha
serem transformados em figuras fantásticas sobre o pano; com
meu avô ferreiro, vi o metal bruto ser transformado em garfos
colheres e facas e com meu pai, pedreiro, vi terra, areia,
cimento e água serem transformado em casas. Cresci achando
ser possível transformar o mundo porque vi meu mundinho de
criança ser transformado o tempo inteiro por meus super-heróis
de carne e osso. Só não sabia que teria de repensar todos
esses valores quando me mudei para o Rio de Janeiro e percebi
que o meu saber rural tinha muito pouco valor de mercado numa
cidade grande. Foi aí que tive noção de que existiam dois
brasis e para entendê-los me meti entre eles. É onde me posiciono
até hoje, como cidadão, como artista e como arteiro.
FC
- Como o jovem, de hoje, vê a cultura popular? A escola tem
cumprido seu papel em relação a eles? Délcio, favor tecer
comentário sobre o jongo e como ele deve ser passado para
as crianças.
Délcio Teobaldo - Eu acho
que o jovem ainda vê a cultura popular do ponto de vista do
professor. O que é muito limitado e chato. É como tentar conter
um oceano dentro de um rio. Cultura, como já disse antes,
é o que você vê, o que você come, o que você experimenta no
dia a dia; um universo grandioso e ilimitado e não figuras
de Saci Pererê, de Mula sem Cabeça e de uma série de símbolos
que ficam reservados ao Dia Nacional do Folclore, comemorado
em 22 de agosto. Quando o arqueólogo inglês Willian John Thoms
formou a palavra folclore (folk, povo e lore, saber) era para
ter ficado claro que este saber é dinâmico e transformador.
Limitar a cultura popular a um mês é burrice. O folclore,
por exemplo poderia ser mais bem trabalhado na escola porque
ele atende a todas as exigências do currículo. Pode-se, por
exemplo, trabalhar história e geografia com a narrativa jornalística
da Literatura de Cordel; pode-se trabalhar matemática com
as quadrinhas do tipo "um dois, feijão com arroz/três quatro,
feijão no prato..."; educação física e artística com jogos
como pique-esconde, o bumba-meu-boi, a capoeira e por aí vai.
É mostrar à criança que ela vive e constrói o tempo todo a
sua cultura, a sua identidade e a sua história.
FC
- O jongo pode ser comparado ao repente nordestino e à literatura
de cordel?
Délcio Teobaldo - Na sua
espontaneidade, sim; na sua dinâmica, não. A diferença começa
logo na definição do que é o Jongo que eu prefiro sempre escrever
no plural. os Jongos são manifestações orais-ritmicas ligadas
aos ciclos de plantio, cultivo e colheita, comuns às culturas
mais remotas. Desde que o mundo é mundo o homem louva, canta
e dança o prazer de possuir sementes para plantar; louva,
canta e dança quando a chuva e o sol fazem com que a sementes
germinem e louva, canta e dança quando colhe o alimento. O
prazer que se tem em torno da mesa é comum a todas as culturas,
sejam elas rurais ou urbanas, ricas ou pobres, nacionais ou
internacionais. Agora, cada um louva, canta e dança do seu
jeito. Os jongueiros agradecem os frutos da terra, cantando
benditos; assim como o capitalista pode agradecer o fato de
ter saboreado um bom bife, beijando o seu cartão de crédito.
Tudo é humanamente possível e aceitável. Como há várias colheitas,
há vários Jongos. Os contos (histórias) e pontos (versos cantados)
de um jongueiro que cultiva cana de açúcar, nunca será igual
aos contos e pontos de um jongueiro que planta e colhe banana
ou café. Casa Jongo é um Jongo, tem seu saber e sua especificidade
e deve ser respeitado dentro da riqueza das suas diferenças.
Como os pontos nascem da emoção e da observação, eles podem
ser comparados ao repente do Cordel. À literatura, não, porque
os Jongos são contados e falados e os pontos, assim divulgados,
sobrevivem na memória do povo, sem necessidade de ser escritos.
- - - -
FC
- Em sua pesquisa, o contato dos africanos, com os deuses
e com a comunhão com divino, se dá através da manifestação
da natureza (tempestades, raios, trovões, etc) como também
o ser em estado de euforia (dança e canto).Sua pesquisa assemelha-se
ao filósofo Niztche sobre os deuses na Grécia, antes de Sócrates.
É correta tal analogia?
Délcio Teobaldo - Antes
de escrever o livro "Cantos de fé de trabalho e de orgia -
O Jongo rural de Angra dos Reis", cumpri um ritual de gestação,
ministrando um fórum que durou exatos nove meses, onde fiz
um estudo comparado dos Jongos com a cultura universal. Nesse
fórum pude "viajar" à vontade, olhando o mundo do ponto de
vista da cultura matricial africana, que é a mais antiga,
complexa e inexplorada do planeta. Tudo o que se construiu
sobre o mundo foi em cima dessa matriz. Isso me ajudou a entender
que no coração de toda cidade existe uma aldeia, onde habitam
o filósofo alemão Nietzsche, o grego Heráclito; os compositores
Heitor Villa-Lobos, Luciano Gallet, Gilberto Gil, Caetano
Veloso e Clementina de Jesus. Toda essa gente bebeu da mesma
fonte o que mostra a popular erudição dos Jongos. Uma cultura
que privilegia o verbo, a palavra, como instrumento de diálogo
e de luta. O Jongo de Angra dos Reis, por exemplo, que usei
como referência num documentário ("Morre Congo, fica Congo",
produzido pela DGT Filmes, de São Paulo) e agora, neste livro,
ilustra como um país perde e leva tempo para recuperar a auto-estima,
quando despreza a sabedoria da sua gente. Os Batuques e Caxambus
dos meus avós e meus pais, assim como o Jongo angrense são
exemplos do que ainda existe de grandeza no conhecimento humano.
Nietzsche tem uma frase que define isto de modo muito claro:
"O homem é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem,
uma corda sobre o abismo... Grande no homem é que ele é uma
ponte e não um fim."
FC
- Fale de sua experiência como escritor de livros infantis,
e o que te levou a a mergulhar nesse maravilhoso universo.
Délcio Teobaldo
- Estou no terceiro livro infanto-juvenil e entrei nesse mercado
por conseqüência do trabalho de educador. Gosto da prática
da formação social; de acompanhar o desenvolvimento das pessoas,
como se acompanha o crescimento dos filhos. A literatura infanto-juvenil
me dá essa oportunidade. Editei o meu primeiro livro, "Isto
é coisa das idade", em 1995. Portanto, já se passaram oito
anos. Assim, quem leu o livro aos 10 anos, hoje tem 18 e quem
o leu aos 15, hoje tem 23 e provavelmente, já é um pai ou
uma mãe que possui o livro e vai passá-lo à segunda geração.
Pensar assim me satisfaz, como escritor e como educador.
FC
- Gostaria que comentasse O livro infantil "OS QUATRO PRESOS
NO QUARTO", onde voce renune personagens da cultura popular
para refletirem sobre seu papel.
Délcio Teobaldo
- "Quatro trancado no quarto" é a reação dos excluídos. Falo
de quatro personagens do imaginário popular: o Saci Pererê,
a Mula sem Cabeça, o Bicho-Papão e o Caipora que, de repente,
se descobrem ultrapassados e marginalizados num mundo que
supervaloriza os games e joga no lixo os contos do "era uma
vez". Nesse universo partido, entre o moderno e o popular;
entre o real e o irreal, eu ponho os quatro personagens dentro
de um quarto e faço com que eles repensem seus valores, dêem
a volta por cima e se reencontrem como elementos indispensáveis
à fantasia humana. Dessa forma, o Saci personifica o negrinho
aleijado e risível de quem achamos graça porque não queremos
avaliar a sua miséria; a mula sem cabeça personifica a criança
portadora de deficiência que se comunica com gestos; o bicho
papão, com seu lençol velho sobre a cabeça é o menor marginal,
sem nome e sem rosto que se enrola em trapos e dorme sob a
marquise, cheirando cola para enganar a fome; e o Caipora,
que luta pela defesa dos bichos e plantas é o sonhador que
acha possível restabelecer a harmonia de todos os seres. Esse
livro mais os dois anteriores ("Isto é coisa da idade" e "Palavra
puxa prosa") formam uma espécie de trilogia da possibilidade
do sonho.
FC
- Uma mensagem.
Délcio Teobaldo - Não admitam
o Brasil duplicado. Não aceitem que existam um país rico e
outro pobre; um vencedor e outro derrotado; um legal e outro
ilegal; um que deu certo e outro condenado à miséria. Coloquem-se
no meio, no miolo da questão, interfiram, provoquem com seus
saberes. Não conheço poder maior que o pensamento e conseqüente
ação coerentes e organizados.
Os livros de Délcio
Teobaldo podem ser encontrados nos sites:
www.editoramiguilim.com.br
www.e-papers.com.br
www.litteris.com.br
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