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Para escrever o livro Crianças do Tráfico, o ex-lutador de boxe entrevistou 25 crianças e jovens de 12 a 23 anos, soldados das facções criminosas responsáveis pela venda de drogas em favelas cariocas. Mais do que conhecer como vivem os jovens, Luke Dowdney foi absorvido pela realidade dos confrontos armados nas favelas do Rio. A pesquisa realizada por este cidadão britânico abre a discussão sobre a responsabilidade da sociedade em mudar este quadro de extermínio da infância.

FC - O que te levou a escrever este livro?

LUKE - Me inspirei em uma pesquisa feita, ano passado, aqui no Rio. Tudo começou porque eu tinha participado de vários seminários internacionais sobre " crianças soldados ", atuantes nas áreas do mundo que estão em guerra. Passei a ver que a realidade dos jovens que hoje trabalham nas facções de drogas é muito parecida com a dos que estão nas áreas de guerra. Eles são armados, por adultos, para combater outras facções de drogas e a polícia. São trabalhadores assalariados e cumprem ordens e regras. Quis fazer este livro para mostrar um pouco da realidade deles. Meu foco principal é o direito da criança, vítima de uma situação muito maior do que ela. A questão não é a do jovem ter escolhido a vida do crime. O fato é que ele está entrando em um sistema que, na verdade, é comandado por adultos. Espero que o meu livro mostre esta realidade tanto para a sociedade brasileira quanto para a comunidade internacional. Acredito que esta situação não é bem explicada, nem entendida. Hoje, a mídia mostra os jovens como bandidos e não vítimas. Na minha opinião, crianças de 11, 12 anos de idade que trabalham com o tráfico precisam ser vistas como vítimas.

FC - Fale um pouco sobre seus projetos pelo mundo?

LUKE - Em 95 fui campeão de boxe amador das Faculdades Britânicas. Lutei durante 8 anos. Morei em Tóquio. Isso me serviu muito. Me ensinou a ter disciplina, a dar rumo à minha vida. No Nepal me envolvi na construção de várias escolas. E agora, por conta desta pesquisa e da publicação do livro, vamos iniciar um trabalho sobre a situação das crianças envolvidas com a violência armada. Pretendemos analisar a questão em 10 países, incluindo Jamaica, Honduras, São Salvador, África do Sul, Nigéria e qualquer outro que sofra problema parecido com o que enfrentamos aqui no Rio.

FC- Como são as crianças soldados do tráfico?

LUKE - São como qualquer criança que brinca e tem família. Perguntei a um jovem de 12 anos o que ele fazia. Ele me respondeu: " Vendo cocaína, solto fogos e, às vezes, jogo futebol ". Isso não é sinal de que eles são realmente crianças? São vítimas. Crianças que estão trabalhando e que sofrem graves efeitos psicológicos. Todos os jovens que entrevistei já tinham testemunhado assassinatos. Alguns eram os próprios assassinos. É normal dentro do trabalho deles matar ou morrer, por isso eles têm um lado mais adulto. Mas depois de um breve bate um papo, você descobre que eles são infantis como qualquer criança.

FC_ Qual o momento mais difícil e marcante que você passou convivendo com estas crianças?

LUKE - É assustador ver um jovem de 12 anos empunhando um fuzil. Mas isso é o dia a dia da favela. Não é nada demais. O fato é que eu não estava acostumado com cenas como esta. Entrava nas comunidades para conversar com os jovens e saía. Acho que além das crianças, a comunidade é a maior vítima desta situação toda. São os moradores que sofrem com balas perdidas, fruto dos tiroteios entre grupos rivais de traficantes e a polícia.

FC -Em seu livro há uma estatística de que existem 10 mil traficantes armados no Rio e que 7 mil deles são menores. Como você analisa esta situação?

LUKE - É grave. A sorte é que estas dez mil pessoas representam apenas 1% da população favelada. Por isso não devemos estigmatizar a favela inteira. Pena que hoje a favela é vista como local de traficante, bandido, área de violência. Uma injustiça.

FC - Se medidas imediatas não forem tomadas poderemos ficar como a Colômbia?

LUKE - Acho que a Colômbia tem uma situação completamente diferente da nossa, por causa da guerra civil que aconteceu lá. Não existe guerra civil no Rio de Janeiro, nem poder paralelo. O traficante não tem interesse em ocupar o lugar do Estado. Isso não passa de uma desculpa para validar regimes e políticas mais repressivas. Acredito que o traficante esteja ocupando um espaço vazio. Se este espaço estivesse preenchido, ele não teria vez.

Isso que dizer que você acha necessária a presença do Estado?

LUKE - É o Estado que deve ocupar socialmente estas áreas. Simplesmente entrar nelas como se fossem qualquer lugar da cidade, ao invés de darem tratamento diferenciado só porque é favela. Se o Governo fizer isso, eu acredito que mesmo que a venda de drogas continue, a forma violenta e armada que hoje existe irá diminuir muito.

FC - Como você acha que a mídia deveria informar os fatos?

LUKE - Eu acho que a mídia é muito responsável por estigmatizar a favela. É por isso que muitas pessoas da favela sabem que são vistas como bandidos e traficantes. É preciso mudar e quebrar este paradigma que só mostra favela e tráfico. Não é assim. É verdade que os traficantes são força presente e diária nas favelas, mas isso não pode definir uma favela. Acho que a mídia tem que ser um pouco mais responsável, dizer que bandido é bandido, trabalhador é trabalhador. O próprio tráfico fala isso. A maioria das pessoas que mora nas comunidades é trabalhadora.

FC - É verdade que morre um número maior de crianças no Rio de Janeiro do que nas guerras pelo mundo?

LUKE - Essa é uma das estatísticas que mostramos no livro: entre 1997 e 2000, 467 menores de 18 anos morreram no conflito entre Israel e Palestina. No mesmo período, cerca de 4 mil jovens morreram vítimas de arma de fogo na cidade do Rio de Janeiro. Quer dizer, oito vezes mais. Isso é uma coisa chocante!

FC - Na sua opinião, qual é o melhor caminho para modificarmos esta triste realidade?

LUKE - A primeira coisa que devemos fazer é começar a tratar as comunidades carentes de outra forma, investindo em termos econômicos, sociais e culturais. É preciso que existam alternativas e oportunidades para todos. Isso inclui policiamento comunitário, ou melhor, o policiamento para proteger cidadãos em vez de reprimi-los. A polícia entrando na favela como invasora, cumpre seu papel e vai embora. Isso não dá certo, só aumenta aquele clima de guerra que assistimos diariamente.

FC - O que você tem a dizer para crianças e adolescentes que anseiam por dignidade, respeito, educação e justiça social?

LUKE - Os jovens da comunidade precisam saber que existe espaço na sociedade para eles. Dignidade, respeito, educação e justiça social são direitos de todos e não só das pessoas que moram fora das favelas. A favela tem que ser tratada como um bairro qualquer e para isso as pessoas tem que ser incluídas socialmente, entendendo que são cidadãos deste país e não pessoas da favela.