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Ilustração: Gabriel LokeTodas as crianças crescem.
Mauricio de Sousa, não. O desenhista, escritor, editor Mauricio nasceu em São Paulo, na cidade de Santa Isabel, há 67 anos. Mas é junto com a sua turma Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e muitos, muitos outros, que o menino Mauricio conta histórias e brinca de fazer rir milhares de crianças
em todo mundo.Desde pequeno, ele é apaixonado por gibis. Com a sua mesadinha ia na banca e comprava todos os que podia. Conta que uma vez inventou uma contribuição para a Sopa Escolar só para conseguir o dinheiro para comprar mais gibis. A vó Dita brigou muito, mas Mauricio, embora envergonhado, lembra da alegria de ler novos gibis.Tanto leu, que um dia começou a criar seus próprios personagens. Em 1959 (quando estava com 24 anos) publicou a sua primeira história em quadrinhos no jornal: as aventuras de um cãozinho chamado Bidu e seu dono, Franjinha. Em 10 anos, Maurício invadiu mais de 200 jornais em todo o Brasil e nunca mais parou. Foi pra TV, inventou filmes, virou marca de produtos infantis, botou na banca um monte de gente legal: Chico Bento, Penadinho, Pelezinho, Horácio, Anjinho ... Criou o Parque da Mônica no Rio e em São Paulo e como todo menino ainda tem muitos planos e projetos para realizar. Vai transformar a Turma da Mônica e o Horácio em astros do cinema e da televisão, e pretende fazer com que
10 milhões de crianças aprendam a ler e escrever muitas, muitas histórias...

Quando começou seu interesse pelos QUADRINHO?

Mauricio - Desde que aprendi a ler neles, antes mesmo de ir à escola.

Fale um pouco de sua carreira , foi difícil no começo?

Mauricio - Toda carreira dá um trabalho maior no início. E no meu caso, por força da natureza do meu trabalho, tive que lutar contra a descrença de editores e donos de jornal que não acreditavam no sucesso de historietas brasileiras.

O projeto com a marca CICA foi fundamental para se tornar conhecido?

Mauricio - Foi um momento importante. Mas quando saíram os primeiros desenhos na televisão, tínhamos mais de duzentos jornais publicando nosso material. A turma já era bem conhecida. Faltava a televisão. Daí eu ter aceitado o contrato. Era a maneira de estarmos na TV antes de termos os desenhos animados tradicionais. E foi ótimo. Se não foi fundamental, foi um dos projetos adequados para nosso crescimento.

Qual é o segredo da sua criatividade? O que inspirou você a criar a turma da Mônica?

Mauricio -Não há segredo na criatividade. Simplesmente há criatividade. Que talvez se explique num processo de idéia/realização sem peias, sem medo, ousado. Quanto à criação dos personagens, eu tinha que buscar agentes para expor minhas idéias, minhas histórias. Fui buscar inspiração nos meus filhos, conhecidos, parentes, crianças que conheci... e assim nasceu a nossa grande turma.

O que você acha da idéia de criar um museu das historia em quadrinhos no Rio de Janeiro?

Mauricio - Linda idéia. Espero que haja um cantinho para expormos o que fazemos na área.

Fale um pouco do Mauricio criança, você fazia muita bagunça?

Mauricio - Fui uma criança normal. Conseqüentemente, fazia alguma bagunça, sim. Mas com pais e avós sensíveis e condescendentes, as bagunças não eram tratadas como tal. Eram observadas e serviam para um ou outro papo sobre a necessidade de ordem, de cuidados. Brinquei bastante em ruas de terra, no interior, nadei em rios de águas limpas (no Tietê, imagine!), cacei rãs à noitinha, nas várzeas do rio, com lanterna de carbureto, empinei pipas que eu mesmo construía, desenhava sempre, e lia gibis desde os 5, 6 anos.

Seu trabalho teve alguma influencia do desenho japonês, muitos consideram
a turma da Mônica como o 1º Mangá brasileiro?

Mauricio - H á alguma semelhança devido ao grafismo, traços simplificados e olhos grandes. Mas é pura coincidência.

Quais são seus projetos para o futuro? Alguma novidade?

Mauricio - Milhões de projetos e algumas novidades. Nos quadrinhos, quero passar a editar alguns álbuns com temas específicos, mas usando histórias já publicadas. Na animação, estamos desenvolvendo desenhos em flash, já no nosso site (monica.com.br), desenhos em computação gráfica (Horácio, já em pequenos filmes de um minuto nos cinemas) e longas metragens. Já em produção. Um da turma e outro do Horácio.

Você desenvolve algum projeto social?

Mauricio - Temos participado de diversas campanhas, movimentos, projetos e programas ligados à saúde pública, à defesa do meio ambiente e à educação. Um Instituto Cultural (tipo Fundação) cuida dessas atividades - Instituto Cultural Mauricio de Sousa.

Como você vê a utilização de oficinas de histórias quadrinhos para crianças em comunidades pobres do Rio de Janeiro?

Mauricio - Criança adora desenhar, pintar, exercitar alguma atividade criativa, artística. Se você der pincel, tinta, lápis, um instrumento musical, uma bola, orientação carinhosa e profissional, terá meio caminho andado para afastar crianças de algum
tipo de mau hábito.

Como você vê infância no Brasil com tanta desigualdade social?

Mauricio - Temos um imenso caminho a trilhar para desbastar essas arestas de desigualdade. Todos deveríamos estar irmanados nessa missão.

Uma recente pesquisa traz um dado alarmante, a expectativa de vida das crianças pobres que vivem nas periferias não passa dos 20 anos. Com você vê essa triste realidade?

Mauricio - Não creio nesse número. Está exagerado. Mas o problema existe. E dependendo de vontade política de governos, da cidadania exercida pela população, podemos diminuir números ainda gritantes desse massacre.

O que acha da idéia de um jornal produzido e ilustrado por crianças e adolescentes?

Mauricio - O escritor e o desenhista passam a se considerar como tal e acreditar em seu futuro a partir de sua primeira publicação.