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O celibato perdeu o mineiro Antonio Olinto, mas o Brasil ganhou um grande difusor de sua cultura seja através da poesia, romance, ensaio, crítica literária ou análise política, traduzidos em dezenove idiomas. Professor universitário, crítico de jornais, foi Adido Cultural em Lagos e em Londres, conferencista no Brasil e no exterior, promotor de salões de pintura, diretor e apresentador dos primeiros programas literários da TV brasileira. Ocupa a Cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras e trabalha no Departamento de Documentação e Informação Cultural, da Secretaria das Culturas. Esse verdadeiro patrimônio nacional é o entrevistado do Fala Criança.

 

Fala Criança – Quando e como começou seu interesse pela leitura? Seus pais o incentivaram?
Antonio Olinto – Aprendi a ler antes dos três anos de idade. Nada há de esquisito nisto. Eu era uma criança quieta. Minha tia Conceição resolveu ensinar minha babá (que tinha 14 anos) e era analfabeta, a ler. Eu ficava no colo da babá, quieto, vendo minha tia mostrando uma letra e outra, ensinando a pronúncia, formando palavras, etc. Alguns meses depois de dar diariamente essas aulas, minha tia disse para a empregada: “Você é muito burra. Quer ver como o Olintinho (era eu) já aprendeu”? Virou para mim e disse: “Leia aqui”. Li: “Eu sei tudo” (era o nome da revista). Minha tia não acreditou. “Você é esperto. Já sabia que a revista se chama Eu sei tudo”. Abriu uma página de dentro e tornou a dizer: “Leia aqui”. Li: “O copo está cheio d`água”. Eu sabia o que era “copo” e o que era “água”, mas o cheio, não: nunca havia visto uma coisa que se chamasse “cheio”. Então comecei a ler o “Tico-Tico”, revista para crianças muito popular naquele tempo. Depois li histórias, principalmente os romances populares que minha mãe recebia em fascículos todas as semanas. Eram as “novelas” de então, como as novelas de rádio e TV mais tarde.

Fala Criança – E a partir daí o senhor não parou mais...
Antonio Olinto – Minha trajetória até que foi simples. Aos 11 anos entrei para um seminário católico: ia ser padre. Então lia tudo o que me chagava às mãos.

Fala Criança – Na sua opinião qual a importância da literatura infantil e dos quadrinhos na formação intelectual da criança?
Antonio Olinto – A leitura de livros infantis e infanto-juvenis é básica na formação da criança. Não só tal hábito prepara a criança para leituras mais pesadas na adolescência e na maturidade como influi no modo e na qualidade do pensar do jovem.

Fala Criança – O que significa ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?
Antonio Olinto – Ser membro da Academia Brasileira de Letras é assumir um compromisso de lutar em favor do idioma português, que é o nosso, e em favor da literatura brasileira que nos explica e enobrece.

Fala Criança – Temos excelentes autores, quais os que mais admira?
Antonio Olinto – São muitos. Desde os primeiros entusiasmos pelos livros de José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida até os poemas de Jorge de Lima e os romances de Jorge Amado e Guimarães Rosa, passando pelos livros de Machado de Assis e pelo “Os Sertões” de Euclides da Cunha – é, só para citar livros brasileiros, todo um território de conquistas que percorremos para entender o que é a vida e o que somos nós.

Fala Criança – Como o senhor analisa a literatura brasileira atual?
Antonio Olinto – Temos uma das mais ricas literaturas do momento. A partir de fins do século XIX, quando Machado de Assis criou suas obras principais, enorme tem sido a variedade literária do Brasil. Depois dele, a obra de Lima Barreto se impôs como dando às nossas letras uma nova perspectiva. A Semana de Arte Moderna de 1922 mudou nossa rotina dos anos anteriores e abriu caminho para novos tipos de poemas e livros de ficção. Os anos 30 – quando surgiram Rachel de Queirós, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, foram seguidos por uma nova geração – a de 45 – que mudou, principalmente, a nossa poesia. Logo em seguida, Guimarães Rosa e Clarice Lispector mudaram nossa ficção. Junto com eles, tivemos Adonias Filho, Octávio de Faria, entre outros romancistas e poetas como Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Dantas Mota, Mário Quintana. Hoje, a diversidade é ainda maior. Na poesia ressalto o nome de Ledo Ivo, que está publicando agora seus poemas completos, e no romance - Antonio Callado. Uma simples leitura das listas de livros mais procurados, que saem nos jornais, dar-nos-á uma vislumbre de como nossa literatura vai bem.

Fala Criança – Dos autores estrangeiros, quais são os seus favoritos?
Antonio Olinto – Para não dar uma lista muito grande, eu enumeraria Proust, Balzac, Tolstoi, Stendhal, Kafca, Joyce, Herman Hesse, Virginia Woolf, William Faulkner, Ezra Pound, Thomas Mann, entre muitos outros.