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Ilustração: Igor LokeTudo que ele queria da vida era desenhar. Desenhar virou sua profissão. Seu jeito de dizer ao mundo os milhões de idéias que saem da sua cabeça. O personagem mais famoso já
chegou à maioridade, mas continua sendo O Menino Maluquinho. Este ano, Ziraldo Alves Pinto completa 70 anos e ainda tem muito o que dizer. A sua língua já se espalhou em vários idiomas: inglês, espanhol, alemão, francês, italiano e basco. Crianças do mundo inteiro conhecem os seus livros. Mas ele garante que tem uma missão: fazer as crianças brasileiras lerem mais. A carreira de autor infantil foi quase que por acaso. O primeiro livro: Flicts, ele criou em três dias. Até sair o segundo, passaram-se 11 anos. Aí veio O Menino Maluquinho. Um sucesso tão instantâneo que Ziraldo não parou mais de desenhar e escrever para crianças. Nos últimos 22 anos, ele criou mais de 140 livros infantis.
A gente do Fala só tem uma coisa a dizer: Obrigado, Mestre.


Ziraldo, conte para a gente como começou seu interesse por quadrinhos.

ZIRALDO - A mais antiga lembrança da minha infância sou eu desenhando. O primeiro livro, naturalmente, foi nesse tempo, pois antes de entender as palavras, minha cabeça já transava imagens. Minha mãe dobrava, costurava e fazia para mim uns livrinhos de papel manilha para eu ilustrar minhas historinhas. Não sei se naquele tempo já imaginava ser o que sou hoje. Acho que o que eu queria da vida era isso mesmo.

Fale um pouco de sua carreira. Foi difícil no início?

ZIRALDO - Cheguei ao Rio de Janeiro, vindo de Minas, no fim dos anos quarenta para ser desenhista de histórias em quadrinhos. Não era uma profissão (ainda não é!) no Brasil. As histórias vinham todas dos Estados Unidos. Virei desenhista de agência de propaganda. Mas eu queria a imprensa. Virei cartunista. Depois chargista político. Aí, veio o “Pasquim”. Em 1969 fiz meu primeiro livro infantil, “Flicts”. Mas a barra estava pesada, optei pelo “Pasquim”. Só em 1980, quando os militares estavam voltando para os quartéis e o “Pasquim” perdera o sentido para mim, foi que me aconteceu “O Menino Maluquinho”. O sucesso do livro mudou minha vida. Virei autor de literatura infantil.

Fale da importância da literatura infantil e dos quadrinhos na vida da criança.

ZIRALDO - Quando virei autor de literatura infantil, descobri o que eu já sabia: artista no Brasil tem missão. E agora? Escrever livros para crianças num país sem leitores? Vamos mudar isto. Hoje, mais de cem livros infantis depois, estou mergulhado nesta, digamos, luta, até a raiz dos cabelos. E afirmo: ler é mais importante do que estudar. Acho que um dos caminhos para um país melhor é fazer dele um país de leitores. O pior é que agora, na era da informática, você vai deixar o sujeito cada vez mais entregue à globalização, ao comando de quem tem mais poder mesmo, a essa terceira coisa colocada na velha dicotomia capital/trabalho: a informação. Os caras que tinham o capital acrescentaram a informação, e quem tinha o trabalho se deu mal: ficou dois a um. Ninguém percebeu que o capitalismo, pela informação, arrasou a hipótese da esquerda. E ainda mais com uma velocidade dessas... se um povo não lê, fica muito longe das grandes nações do mundo, fica mais perto das tragédias.

Como você vê os quadrinhos hoje? São melhores ou piores que antigamente?

ZIRALDO - antigamente a que você se refere qual é? Na metade do século passado? No fim dele? Não sei. Como disse antes, as histórias em quadrinhos, na primeira metade do século passado, vinham todas dos Estados Unidos. Hoje, com o computador doméstico, ficou mais ágil fazer histórias em quadrinhos. Tudo tem sua época e sua importância dentro do seu próprio contexto.

O que você acha da idéia da criação de um museu das histórias em quadrinhos aqui no Rio?

ZIRALDO - Acho ótima

Fale um pouco do Ziraldo criança, você era levado?

ZIRALDO - Desde que nasci, isto é, desde quando tenho consciência de minha existência, desenhava em todos os lugares, na calçada, nas paredes, na sala de aula. Algumas das minhas professoras primárias não entendiam. Uma delas rasgou um desenho meu na frente dos colegas. Sofri!!! Por sorte, outras professoras me incentivaram. Eu me sentia tão seguro, quando menino, que não percebia nem mesmo os problemas econômicos de meus pais. Nem sei se eles procuravam escondê-los... Meu pai era guarda-livros e minha mãe costureira. Ela costurava a noite inteira. Até hoje eu ouço a máquina tic-tic-tic-tic-tic. Éramos sete filhos: Ziraldo, Ziralzi, Zélio, Maria Elisa, Maria Helena, Maria Elizabete e Geraldo. E também Dinair, irmã de criação, que ajudou mamãe a acabar de criar os mais novos. Nós a consideramos como uma irmã. Posso afirmar que a minha infância foi muito boa. Rodei pião, joguei bola de gude. Achei ótimo brincar de cabra-cega, pular carniça, soltar pipa. Tudo por minha conta. Foi um barato.

Você acha que os quadrinhos estão muito violentos? Qual a sua opinião a respeito?

ZIRALDO – Se você é um esquimó, não pode se queixar da neve; se você é um sujeito do século 21, não pode se queixar do século 21, tem que ir em frente.

Qual o gênero que você mais gosta de ler, e quais são seus heróis preferidos?

ZIRALDO - Eu desde pequeno sempre fui desinquieto, como dizia minha mãe e ela não mentia! Via com desconfiança esses valores padronizados, mas, como D’Artagnan, eu queria dar certo! Na minha cidade, Caratinga, eu lia muito e era considerado um menino prodígio. Identificava-me com os heróis das histórias que eu lia. Sempre tive paixão pela leitura. Em minha cidade, chegava pouca coisa, mas eu tinha os livros do meu pai e lia a revista “Tico-Tico”. Ter um livro nas mãos é uma emoção que sempre curti. O livro é um objeto maravilhoso, perfeito, ele tem vida. Livro é um amigo que retribui muito. Sempre digo aos pais de filhos ainda jovens que eles devem encher a casa de livros. Depois, ainda em Caratinga, descobri o “Gibi”. Fiquei deslumbrado com a descoberta. Fui abrindo as páginas do primeiro “Gibi” que me caiu nas mãos e adivinhando o meu futuro.

Conte para a gente quando começou seu interesse por livros infantis? Qual a obra que você gostou mais de realizar?

ZIRALDO – Sentir o livro, seu cheirinho de novo, era uma fascinação... Eu li tudo, Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Ofélia e Narbal Fontes, Mistério Magazine, X9, todo mundo, até descobrir o gibi. Meu interesse pela leitura vem de muito tempo. Em 1960, surgiu a possibilidade de fazer histórias em quadrinhos na revista “O Cruzeiro”. Criei o “Pererê”, “A Turma do Pererê”, e durante cinco anos a revistinha vendeu muito: 150 mil exemplares, na época, uma tiragem absurda. Em 1964, a revista parou e eu fui trabalhar em publicidade (porque sempre vivi de publicidade, sou desenhista de agência). Em 1969, surgiu o “Pasquim” e ali eu tinha vários personagens: “Jeremias o Bom”, “Supermãe”, ... Então, eu levei o “Jeremias” para o editor Fernando Faro, da Expressão e Cultura, e ele perguntou se eu não tinha um livro infantil. Embora eu não tivesse nada pronto, respondi: “Te trago amanhã”. Tive que inventar um livro em três dias. Como é que eu ia desenhar um livro nesse tempo? Aí eu criei o “Flicts”, não tinha que desenhar... O livro foi um sucesso danado. Somente em 1980 voltei a escrever um livro para criança: “O Menino Maluquinho”. Aí, virei definitivamente um escritor para criança. Hoje tenho mais de 140 títulos publicados pela Melhoramentos e nenhum deles fora de catálogo. “O Menino Maluquinho” é mesmo uma coisa!... É como um filho que passa de ano, tira dez na escola, casa com a nora dos seus sonhos, quer dizer, faz tudo direito.

Você se inspirou em alguém para fazer “O Menino Maluquinho”?

ZIRALDO - O Menino Maluquinho é um menino que teve acima de tudo, amor na infância. Uma criança feliz tem tudo para ser um adulto feliz e foi isso que eu quis mostrar no livro. Ou não quis! Não me baseei em ninguém, especificamente. Só fiquei prestando atenção na vida.

O que acha da idéia de um jornal feito por crianças adolescentes? E com quadrinhos, é claro?

ZIRALDO - Acho uma idéia ótima. Basta que tomem cuidado. No meu caso, por exemplo, não faço proselitismo com meus livros para crianças, não trato de temas políticos, não quero fazer a cabeça de ninguém naquela faixa de idade. Gosto de inquietar adultos acomodados e despertar as crianças para a alegria e o prazer que é ler com desenvoltura. Quer dizer: quando faço um livro, penso no quanto ele pode ser agradável, interessante. Um jornal feito por crianças, para crianças, deveria seguir esta linha, mas a decisão é de vocês.

Como você vê a infância no Brasil com tanta desigualdade social? O que você sugere?

ZIRALDO - Sempre desejei e continuo desejando um mundo melhor. Acho que no mundo ideal a criança seria o centro de preocupação da sociedade. Um mundo de crianças felizes seria o mundo do futuro sonhado. Acho que é isto!