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Machadinho, moleque mestiço


Sua mãe morreu quando ele tinha 10 anos de idade; aos 12 anos perde o pai. Criado pela madrasta, vende balas e doces para ajudar na economia de casa. Enquanto trabalha constrói um sonho... Esta é a história da infância do escritor Machado de Assis. Ela começa no dia 21 de junho de 1839, quando ele nasce e vai até 12 de janeiro de 1855, quando publica o primeiro poema, aos 15 anos de idade.

O Morro do Livramento está em festa. Os barracos e as ruas enfeitados com bandeirolas. Comidas e bebidas quentes para aquecer as noites de junho. Mês dos santos festeiros.
– Louvado, meu Santo Antônio. Já se passaram nove luas. Pelas minhas contas esse menino nasce ainda hoje.
– Como a comadre sabe que é menino?
– Pelo trabalho que tá me dando, ô! Também vale a experiência. Veja só esta barriga. Redonda é menina. Pontuda assim, é menino na certa
– Queira Deus, comadre, que essezinho aí não seja doentinho como a irmãzinha, a pequena Leontina.
– Queira Deus, comadre. Tenho fé nos meus santos Antônio, João e Pedro.
Dona Maria Leopoldina Machado de Assis, faz o sinal da cruz. O marido, Francisco José de Assis acaba de chegar do trabalho. Ela entregou a última encomenda de roupa lavada. Deitou com dores. Foi só o tempo de a criança nascer. Dona Bentinha, a parteira de todos no Morro do Livramento, não segurou o espanto:
– Vixe Maria, o menino é xendengue (magro, franzino, na língua dela). Coitado de inhô Chico e inhá Maria, meu pai Xangô. É bom batizar logo, se não morre pagão.
– Já escolhi os padrinhos e o nome, “seu” Francisco adiantou.
– Que nome? Se fosse menino não ia se chamar Antônio, Pedro ou..., Dona Maria tenta sugerir.
– Não é bom perder tempo, Maria. Vamos dar o nome do padrinho. Ajuda a aproximar as famílias. Assim o menino pode ter um futuro garantido.
Futuro que a irmã do menino batizado de Joaquim, homenagem ao padrinho Joaquim Alberto de Souza Silveira, dignitário do Paço, oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro e comendador da Ordem de Cristo, não chegou a ver. Leontina morreu na manhã de um mês qualquer, quando o pequeno Joaquim Maria Machado de Assis, tinha seis anos de idade. Nem a mãe viveu tanto para vê-lo crescer. Depois da morte da filha ela se deixou levar pelo banzo, a terrível doença da tristeza e do abandono que corrói a alma dos pretos. Morreu dormindo. Machadinho tinha 10 anos. Das duas mortes ele guardou na memória a procissão dos pretos descendo o morro, tocando tambores e entoando Benditos.
– Machadinho, meu filho, você já está virando menino-homem e vai entender que não posso criar você e trabalhar, ao mesmo tempo. Por isto a doceira Maria Inês vem morar aqui em casa. Ela é a sua nova mãe.
Amor e dor. Separações e encontros. Machadinho tenta juntar os cacos do mundo, no coração e na cabeça. Não consegue. Um dia, sobe o morro levando uma encomenda para a madrasta. O sol de meio dia queima o chão batido. A sua cabeça voa. Mais alto do que ele deseja. Cai, se bate, se suja. Sofre. É socorrido por Bentinha.
– Ai, minha Nossa Senhora do Bom Parto! Ainda bem que comadre Maria não viveu pra ver essa desgraça. Machadinho sofre do “mal sagrado”.
Era o nome que davam para a epilepsia. Doença sem tratamento, naquela época.
– Só se cura com a simpatia de São Roque. Faz assim, ó: espera o menino ter a segunda convulsão. Aí limpa a baba com um pedaço de pão e joga prum cachorro de rua, qualquer; guarda segredo e a doença num volta mais, Bentinha ensinou.
Assim foi feito, mas depois disto, Machadinho se tornou um menino ensimesmado. Ficava horas riscando figuras no chão, como se quisesse gravar na terra, a sua passagem pelo mundo. Os pretos velhos fizeram um canjerê (dança ritual para afastar os maus espíritos).
– Sei não... Esse menino ainda vai padecer muito com a morte.
Dito e acontecido. O pai, “seu” Chico morreu dois anos depois, quando Machadinho completou 12 anos.
– Ah, meu menino. Não dá pra agüentar a tristeza que ronda esta casa. A gente vai se mudar amanhã mesmo para o bairro imperial. Pra São Cristóvão. Tenho freguesia boa por lá. Você me ajuda e a gente vai pelejando. É longe, mas você vai ficar afastado de toda esta tristeza.
Falta de dinheiro; trabalho até altas horas da noite, ajudando a madrasta nas encomendas de doces; pouco tempo para freqüentar a escola pública, aos 12 anos de idade, Joaquim Maria Machado de Assis assume o papel de tutor do próprio destino. Enquanto vende seus doces e balas na Praça XV, convive com os moçambiques, angolas e minas que vendem frutas, animais vivos, sabão e panos da costa; com os ciganos que martelam o cobre dos tachos; com os orgulhosos negros das bandas de barbeiros. Menino curioso, fica zanzando pelo Largo do Rossio (onde é hoje a Praça Tiradentes). Ali, chamam sua atenção os enterros com choros e festas na Igreja da Lampadosa; a missa celebrada em latim; os livros do Gabinete Português de Leitura, a tipografia e livraria de Francisco de Paula Brito. A Rua do Ouvidor. O seu coração de criança pulsa no mesmo compasso do mundo:
– Vou ser coroinha na Lampadosa para aprender latim! Dona Gallot, lá da confeitaria, vai me ensinar francês e vou ler todos os livros do Gabinete Português de Leitura! Machadinho, exagera.
– Tá bom, meu menino. Agora vai dormir que já é tarde. Maria Inês cuida dele.
Machadinho diminui a luz do lampião e borda letras no papel. Forma palavras. Frases. Lê. Elas têm som e cheiro, como os que ouve e sente nas ruas; têm cor como as festas ciganas; ferem, mas também confortam, como os enterros da Lampadosa. São janelas abertas para o infinito.
É véspera de Natal. Depois de vender todos os doces e balas, Machadinho pega um poema escrito na noite anterior e que, até então, estava entre os guardanapos e papéis que forrava o fundo da caixa. Cola o rosto na vitrine da livraria do escritor e tipógrafo Francisco de Paula Brito. Seus olhos vão e vêm: das pessoas aos livros e dos livros às pessoas. É surpreendido por um negro alto e bem vestido. É o próprio Francisco de Paula Brito. Machadinho se recolhe. Amassa o papel que trás nas mãos.
– Não tenha medo... Vamos entrar. Paula Brito sorri. Machadinho se sente seguro.
– O que você tem aí na mão? Posso ver?... Ora, ora, é um poema. É seu?... Posso ler? O livreiro lê o poema em voz alta. Todos aplaudem.
– Menino, quantos anos você tem? Alguém quer saber.
– Tenho quinze. Vou fazer dezesseis em junho do ano que vem.
– Já vi você por aqui... É o vendedor de balas, não é?
– Era. Agora sou o escritor Machado de Assis.
– É mesmo. Paula Brito sorri. No dia 12 de janeiro do ano que vem o seu poema “Ela” vai ser publicado na revista Marmota Fluminense.
Machadinho repousa a cabeça na caixa de doces vazia e chora. Um choro quase riso, como aprendeu a combinar a tristeza com a alegria; o sonho com a carne; a compaixão com a ironia, presentes em toda a sua obra.

CRIATIVAS CRIANÇAS CARIOCAS

Série de ficção-documental sobre a infância de grandes personalidades cariocas.


Délcio Teobaldo – Escritor (www.editoramiguilim.com.br; www.e-papers.com.br), roteirista (www.tvebrasil.com.br/conversaafinada) e documentarista (www.dgtfilmes.com.br)